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domingo, 2 de março de 2014

Lembranças dos sábados na Livrariazinha, por Salomão Laredo

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO E DA LEITURA
Guerreiras. elas começaram na LIVRARIAZINHA JINKINGS: Ana Letícia e Annelise Miléo, as meninas leitoras de Santarém, estão agora no Teatro em Curitiba

Salomão Larêdo, escritor e jornalista
Ana Letícia e Annelise no colo de Salomão



Na década de 1980, objetivando ajudar na formação do leitor crítico e analítico a Livraria Jinkings abriu um espaço específico e adaptado para as crianças, denominado “Livrariazinha” e lá, convidado, começamos, com os donos da ideia e da livraria: seu Jinkings, dona Isa, Leila, Varico, Toninho e todos os funcionários, aos sábados, os processos de cooperar na formação do leitor crítico. 


As manhãs eram cheias de atrações para a criançada e seus pais, para o importante, salutar e necessário contato com o livro, a leitura. 

Lá, as crianças ouviam histórias, contação de casos e sobretudo de socialização, a conexão do ser humano com a vida nos livros, as ideias e tudo o mais que a cultura e a leitura desencadeiam. Foi uma novidade em Belém e um sucesso enorme. Lá, muita gente surgiu, descobriu se tornou leitor e ledor. 

Lembro que nessa época, aos sábados, nosso programa que sempre foi ir a uma livraria, passamos - meu, de Maria Lygia e do nosso filho Filipe – especificamente a frequentar a Livrariazinha e nesse empenho, alegria e prazer, recordo que numa manhã de sábado, lotado de crianças, estavam lá duas garotas de Santarém, que acompanhadas da mãe Ana Helena e da tia Anacacilda e elas, mocorongas – Annelise e Ana Leticia - desinibidas, cantavam e contavam coisas de seu lugar e então começamos um interação e uma amizade que perdura até hoje. 

As meninas, como mostra a foto, sentaram no meu colo e juntos, cantamos essa linda música do querido maestro Isoca, santareno que é a Lenda do Boto:


LENDA DO BOTO

Letra e Música: Wilson Fonseca (1954)
Quando boto virou gente
Pra dançar num puxirum,
Quando boto virou gente
Pra dançar num puxirum,
Trouxe o “olho”, trouxe a “flecha”,
Trouxe até muiraquitã.
E dançou a noite inteira
Com a bela cunhantã.
Um grande mistério na roça se faz:
Fugiu cunhantã com o belo rapaz!...
... E o boto, ligeiro, nas ondas sumiu,
Deixando a cabocla na beira do rio...
Se alguém lhe pergunta:
“Quem foi teu amô?”
Cabocla responde:
“Foi boto, sinhô!”


Depois as meninas retornaram a Santarém, onde, muitas vezes fui em razão do trabalho de formação do leitor pelo programa “ O Liberal na Escola” e lá, a Anacacilda levava as meninas e ficava sabendo do progresso das queridas amigas e leitoras que ajudam a tia num programa cultural numa emissora e ficava contente sabendo que elas avançavam nos estudos. Depois, perdemos contato e num dos círios, em Belém, Anacacilda fez contato e passamos a nos falar por e-mail e agora elas estavam em Curitiba, para estudar artes cênicas.

(publicado originalmente no blog de Salomão Laredo)

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Jinkings: Um Amigo dos Livros e um Livro Perdido


De: joao carlos
Assunto: Re: amigo dos livros
Para: "Isa Jinkings"
Data: Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2010, 23:03


Querida D. Isa,
penso que, na vida, logo depois do amor, o sentimento que mais nos aproxima de Deus é a gratidão.
Sou - e todos os amigos da Livraria Jinkings  deveriam ser - imensamente agradecido(s) ao saudoso sr. Jinkings e a vocês, sua família.
Se pude ter livros é porque vocês me permitiram comprá-los, numa época de pouco dinheiro. Meu primeiro livro, comprado com a pequena mesada que recebia, saiu do balcão que havia na garagem de sua casa. Me lembro do "seu" (do nosso) Jinkings, sempre atarefado, sempre preocupado em dar atenção a todos. Recordo, como se fosse hoje, de uma conversa que papai teve com ele. Eu era menino e escutei isto:

- Jinkings, a coisa não está boa em São Paulo.
- Joel, onde faltam direitos humanos, nunca a coisa pode estar boa.

Essas frases ficaram na minha memória, porque foi a primeira vez que ouvi a expressão "direitos humanos". Isso aconteceu por volta de 1968.
A simples, mas muito verdadeira, homenagem que prestei a este grande humanista teve o propósito de despertar consciências. Gostaria (e vou dizir isto a ele) que o  Arnaldo Jordy apresentasse um projeto de lei, para a criação de uma estátua de bronze, em tamanho natural, a ser instalada ao lado da de Ruy Barata, no Parque. É o mínimo que se pode fazer pela memória de Raimundo Jinkings. 
Se pude, nesta vida, trabalhar pela cultura de nossa terra, muito devo aos livros que li e que foram comprados (em suaves prestações) na Livraria Jinkings.
Receba, Dona Isa, e peço que transmita ao Álvaro, ao Toninho, à Leila e a todos que estavam à frente da Livraria (como esquecer do Ronaldo e da Cleo?) o meu carinho e a minha imensa gratidão.
Com muito afeto
João Carlos
 ----- Original Message -----
From: Isa Jinkings
Sent: Wednesday, February 24, 2010 8:41 PM
Subject: amigo dos livros

Meu querido João Carlos,
Li com emoção tua linda crônica de segunda-feira.
Te vimos crescer e acompanhamos teu desenvolvimento intelectual, as vitórias que vens acumulando, tua inegável simplicidade.
A amizade e o respeito que nutríamos por teu pai são os mesmos que te dedicamos.
E saber que pessoas como tu cultuam a memória de nosso Jinkings nos conforta muito.
Obrigada, em nome da família, e um grande abraço da amiga
Isa Jinkings. 

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Uma Certa Galinha Assada, por Alvaro Jinkings


Ainda não me adaptei a internet, confesso-me um analfabeto completo, um preguiçoso talvez um “tecnófobo”!

Quando eu vi o blog do meu pai Raimundo Jinkings me veio muita história, talvez 40 anos em 1 minuto e tudo muito rápido, quase instantâneo. E somem. É como se eu fosse obrigado a fugir destes pensamentos; pra não sofrer, certamente. É o nosso incrível instinto de defesa e de sobrevivência.

Vou tentar me desbloquear, e viajar alguns momentos da minha grande e educativa convivência com “Mi Viejo”. Acho que pouquíssimas vezes me lembro dele me dizer:
- Faz assim! ou
- Não faz assim !

Ele me ensinava de outra forma, ele dava exemplo toda hora. Prestando atenção nos mínimos detalhes, eu aprenderia muito pro resto da minha vida. Eu me orgulho muito de ser filho dele: A humildade, a garra, a sabedoria, o equilíbrio, a obstinação e a determinação em lutar! Ele, pelos menos favorecido, pelos excluídos, não tinha apego ao dinheiro e nem ao poder. Inteligentíssimo, um verdadeiro autodidata, presenciei discussões homéricas dele com juizes, advogados, políticos, sindicalistas, estudantes, etc. Qualquer assunto ele dominava, menos futebol! Onde eu dava um show nele.

Nas poucas vezes em que eu não lhe entendi recorri à mamãe, a pessoa que mais o conhecia. Ela o interpretava com ternura e compreensão!

Lembro que apesar das inúmeras provocações e discriminações, nunca deixei de amar e entender “Mi viejo” como o maior de todos, o mais patriota, o mais coerente ( a cada dia que passa mais o valorizo ou seja quanto mais vivo, quanto mais conheço o mundo, mais o valorizo, e mais eu tento imitá-lo).

Hoje conto pro Yago, meu caçula as histórias do Vovô Jinkings que infelizmente ele não conheceu. Mayra e Yuri conviveram com ele por quase 10 anos, não o ideal, nem o necessário, mas o possível!

Aconteceu um fato quando eu ainda era criança que sempre me vem a cabeça. É um momento de absoluta covardia, e a mamãe me pediu para eu relatar aqui: Papai acabara de passar mais ou menos 90 dias preso na 5ª Cia de Guardas e nós (eu e mamãe) fomos até lá para trazê-lo para casa, onde meus irmãos nos aguardavam. Saíamos nós três, ele no meio de mãos dadas com mamãe e apoiando a mão no meu ombro, não chegamos a caminhar 100m quando parou um jipe do exército do nosso lado e perguntou: - Sr. Raimundo Jinkings? - Sim! Papai respondeu. – Queira me acompanhar por favor ! – Temos uma ordem de prisão! Ele, inabalável! Beijou a mamãe, me sorriu e entrou no jipe. Mamãe desabou! Era a tortura psicológica, a sacanagem, a covardia! Era a ditadura na sua face mais cruel, foram mais uns 15 dias no 26º BC [1], quando finalmente nós pudemos comer a “galinha assada” pra comemorar sua liberdade. Desta vez fomos todos buscá-los num táxi grande, um aerowillis. Talvez a mamãe pensasse em trazê-lo “na marra”, caso aparecesse outro jipe.

Depois eu conto a do porco, ou melhor: o Yago vai contar a do porco, viu vó!

ÁLVARO JINKINGS

[1] 26º Batalhão de Cavalaria
.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

O Famigerado Comunista


 
O FAMIGERADO COMUNISTA
por Leila Jinkings


Éramos cinco, todos menores de dez anos, em 1964. Na rua onde morávamos, tinha de tudo: comunistas, fascistas, contrabandistas e sabe-se lá mais o quê. Na esquina, os filhos de um juiz xingavam quando passávamos: “Ei, filhos de comunista!”. A princípio nem sabíamos de que éramos xingados, mas logo fomos a meus pais saber o que era comunista.

 Meus pais explicaram mostrando reportagens com fotografias e entendemos que comunistas lutavam ao lado do povo, eram solidários. Era bom ser COMUNISTA.  Ficamos muito orgulhosos de sermos filhos de comunista. Papai, sempre brincalhão, sugeriu que poderíamos responder a eles dizendo que eram filhos de fascista.
 
 
À tarde saímos para a rua armados, prontos para o embate. Todas as tardes passeávamos de bicicleta ou íamos para a praça, sempre passando pelo território inimigo.


- Ei, filhos de comunista!


- Tu é que és filho de fascista! Filho de fasciiistaaaa!
 

Veio o Golpe de 1964 e papai “viajou”. Nossa rotina não mudou: escola pela manhã, trabalho escolar até 4 da tarde e depois rua, além, claro, da guerra com os reacionários (essa palavra também aprendemos com papai e mamãe).

 Havia na rua um colega nosso que brincava de bicicleta e “pega ladrão”, cujo pai era reacionário. Ele, nesse dia, chegou excitado e foi logo se dirigindo a nós. Estávamos os quatro irmãos mais velhos e dois primos de nossa idade - Huáscar e Bolívar.  Falou: “O pai de vocês, ó: (fez um quadrado com os dedos da mão, significando xadrez, cadeia) tá preso. Pegaram ele lá no Rio de Janeiro.”


Corremos para casa a perguntar a mamãe se era verdade o que havíamos escutado. Mamãe explicou que não era verdade. Aquilo eram apenas boatos que os milicos inventavam para fazer terrorismo com os familiares dos comunistas.

 Mas, no dia seguinte, o mesmo colega, apesar de ter “pegado uma carreira” dos meus primos, veio com nova história: “Olha, o pai de vocês foi assassinado, ele fugiu e levou bala lá na Cinelândia. Estava vestido de estudante.”


Fomos chorando para casa e mamãe tentou nos tranquilizar. Nas rádios e na televisão, no entanto, os repórteres davam a notícia e os mais excitados se referiam a ele como o “famigerado comunista Raimundo Jinkings”. Ela falou que ia telefonar para meu pai e que ele falaria conosco. Mais tarde ela nos avisou que papai viria nos visitar, mas em segredo, pois os milicos queriam prendê-lo porque lutava para que os pobres tivessem os mesmos direitos que nós.

 À noite, mamãe nos chamou para o quarto que ficava nos altos e dava para o quintal. Foi muito emocionante encontrar o papai, que nos aguardava. O quarto estava na penumbra, não se podia acender a luz. Talvez houvesse um abajur ou uma vela, pois podíamos enxergar muito bem o papai. E, mais importante, senti-lo. Ele nos abraçou muito, apresentou o camarada que o acompanhava e falou que estava tudo bem, mas que ele estava escondido para que os milicos não o pegassem, porque ele era amigo de Jango e dos comunistas.


Ele estava vestindo um macacão de operário, tinha os cabelos crescidos e estava barbado. Carinhosamente, nos tirou as dúvidas e fez as recomendações que qualquer pai faz, do tipo “sejam obedientes”, “ajudem sua mãe”, além das que só um pai como ele faria: falou que não precisava explicar nada para ninguém e nem deveríamos contar que ele nos visitara, para que não pressionassem a mamãe. E que o importante era que estaria sempre em contato conosco por meio da mamãe.


 Jamais esqueci esse momento. Me senti companheira e amiga do meu pai. Muito orgulhosa dele, da sua coragem e da sua generosidade.


Leila Jinkings
.
 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Venderim de Livros

UM VENDERIM DE LIVROS

Paulo Nunes

Ao que parece, somos uns desconfiados. Na vida assim acontece porque as pessoas perderam a fé no outro. Daí tudo tenha que ser sacramentado em cartórios, através de testemunhas. Uma pena, pois não?!
Até a felicidade alheia parece depender da desconfiança. Até acho que a palavra poderia ser escrita diferentemente. Proponho: d,ex-confiança. Mas, vejam só, o quanto é fascinante falar sobre a palavra, já até esqueci porque estou aqui diante do papel... Ah! Sim queria falar de um homem que, para mim, representou uma época, e de quem alguns desconfiavam. Traia-se de Raimundo Jinkings. Reparem o seguinte. No nome de seu Jinkings há AR, há também MUNDO, e sem muito esforço podemos transpor o jogo de palavras à vida. Seu Jinkings desejava um mundo arejado, democrático, um mundo onde existisse a Comunhão. Seu Jinkings era vermelho de ideologia (o vermelho é uma cor caliente, apaixonante!), mas o vermelho dele se assemelhava, e muito, com todas as cores do arco-íris. E você, meu amigo que me lê, deve estar pensando: este cara está fantasiando demais o seu Raimundo. E eu te respondo: qual é o problema? Na minha cabeça humana cabem tantas impressões. E já não tenho certeza se seu Jinkings,, com o decorrer dos tempos, permanecera ainda uma pessoa ou em mito se transformara... Não fosse um mito, como ele teria resistido a tantas pressões, tantas perseguições? Um homem-pessoa resistiria assim como ele resistiu?
Lembro de seu Jinkings tão e tão maltratado pelas nuvens obscuras dos idos 60/70. E invadiam sua loja, e revistavam sua casa e prendiam-no. E logo mais seu Jinkings ali, rente que nem pão quente. Ponho-me a imaginar, ação de construir imagens no ar, como não passou baixo aquela família sentindo, minuto a minuto, tantas atrocidades. Mas é mas, e isso é que importa. Seu Raimundo sedimentou uma base sólida sobre a qual os Jinkings construíram a livraria que leva o nome da família. Hoje, com certo orgulho, nós podemos dizer, quando aí por fora nos perguntam:
Na cidade de vocês tem, ao menos, uma livrada? Eu só faço rir, com o canto da boca. Sinto vontade de responder: Temos, pelo menos, três boas cadeias de lojas de livros. Estamos isolados mas nem tanto que não possamos saber o que se tem publicado pelo mundo afora. Nosso mercado livreiro poderia ser melhor, mas não me queixo, Podemos até dizer que a fase mais recente do mercado livreiro de Belém deve muito ao sonhador-vemelho-homem chamado Raimundo. Não quero desmerecer o Neiro, o Craveiro, o Dudu. Não quero deixar de citar a livraria Dom Quixote, por exemplo. Mas seu Jinkings marcou devido sua persistência e lucidez. Sabia ele que seu projeto de uma sociedade mais igualitária perpassava por uma proposta educacional que incluísse o livro como ponte para o sonho.
Lembro bem muito bem de seu Raimundo (e me recordo, oportunamente, de Drummond: “... Mundo, mundo, vasto mundo! Se me chamasse Raimundo não seria uma rima! Seria uma solução! Mundo, mundo, vasto mundo, mais vasto é o meu coração!...”) quando a gente ainda iniciante, ia humildemente propor a compra - fiado - deste ou daquele livro. Ele tentava facilitar ao máximo nossas vidas de universitários duros. Lembro que meu primeiro dicionário Aurélio foi comprado graças à benevolência de seu Jinkings. E haja prestação e haja crediário, e os juros nem assim. Depois a livraria cresceu e o mercado tornou-se mais cruel Sempre quando falam mal de livreiros e editores, peço que façam uma reflexão, pois, neste país de fernandos, quem investe em cultura deveria ser agraciado. Cansei de ouvir dizerem coisas assim: "mas ele não é socialista? Porque o livro aumenta tanto de preço?...” Quero apenas lembrar que preço de livro não é livreiro, infelizmente, quem estabelece.
A vida é mesmo assim. Mas eu insisto, meus caros, que a Jinkings é uma livraria que, a meu ver, mantém os olhos abertos, sonhando com um público livre através do livro. Quando nos aventuramos na área da literatura infanto-juvenil, há cinco anos atrás, abrindo a Fadas & Duendes, ele despojou-se e nos apoiou integralmente? A livraria Jinkings, é claro, facilitando, ao máximo nossa atuação.
Hoje, eu resgato uma dívida não só minha, mas de diversas gerações de leitores, professores, estudantes, intelectuais, que beberam nas malhas das letras do seu Jinkings. Vou mais longe e me arrisco a dizer que uma cidade como Belém, com características de abandono social explícito, foi um lugar agraciado pela presença lúcida do seu Raimundo. Tenho certeza que ele viverá sempre entre nós, dirigindo uma velha lambreta, com os cabelos alvinhos de algodão doce e uma prateleira de livros no coração.
Quem sabe, uma horas dessas, o velho Raimundo não está tentando vender um exemplar de O Capital para São Pedro?...

Belém, Pará, 31 de outubro de 1995.


Paulo Nunes é professor da Unama e da Escola Deodoro de Mendonça. É autor, entre outros, de Banho de Chuva e leitura dos vestibulares da Unama e UEPa.

domingo, 11 de novembro de 2007

Camuflagem

Kung Fu Lounge
Friday, November 19, 2004

O filho do rato
Alejandro Jodorowsky é o cara. Eu tinha uns nove anos quando meu pai me levou à livraria Jinkings e disse para eu escolher o que quisesse. Fui direto à sessão de quadrinhos.

Em plena Ditadura, o velho Jinkings contrabandeava livros de esquerda em meio a caixas de insuspeitos quadrinhos europeus publicados em Portugal. O cara tinha as manhas. Enfiava traduções em espanhol e português de livros do Marx, Engels, Trostky e Mao no meio de álbuns de gente como Moebius, Druillet, Phillipe Caza, Enki Bilal, Quino, Palomo, Plantu e outros grandes nomes das HQs do Velho Mundo.
Meu pai comprava os Marx e companhia. Eu ficava com os quadrinhos. Coisa que, aliás, fez eu desenvolver um dialeto meio esquisito com o passar do tempo de tanto ler histórias naquele português estranho. Foi numa dessas idas à livraria do Jinkings que peguei para folhear um álbum de capa amarela: O Incal Negro - Uma Aventura de John Difool. Não fazia idéia do que era um Incal, mas o livro vinha com o nome de Moebius na capa, que eu curtia das séries Tenente Blueberry e A Garagem Hermética. Foi o suficiente para levá-lo para a casa. E junto com Moebius acabei levando também Alejandro Jodorowsky. As coisas nunca mais foram as mesmas. Mesmo para uma criança habituada às maluquices da turma da Metal Hurlant Jodorowsky era um pouco demais para mim com sua visão cínica e absurda do mundo. Tudo o que fez com Moebius na série do Incal ficou na minha cabeça, da mesma forma que, anos mais tarde, ficariam Thomas Pynchon, Alan Moore, Frank Zappa e Phillip K. Dick. Revendo El Topo essa semana, deu para entender porque esse foi o filme que levou os irmãos Cohen a se meter com cinema e fez com que John Lennon e Yoko Ono inaugurassem uma sessão da meia-noite em Nova York só para exibi-lo.

Em homenagem ao cara, republico aqui uma entrevista que fiz com ele em 2000. Kung Fu Lounge

- posted by Vladimir Cunha @ 8:45 PM

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Lauande homenageia Jinkings

13 de Dezembro de 2006
AI-5: de sorumbática memória

Sempre que chega 13 de dezembro eu lembro do meu amigo e camarada Raimundo Jinkings. Não tem jeito, sempre lembro dele!!! Hoje é um dia que a liberdade perdeu vez nesse país quando da edição do Ato Institucional Nº 5 foi consumada pelos militares em 1968. e todo ano eu escrevo sobre AI-5 pra mostrar minha indignação contra as facetas autoritárias no mundo da política.

Sempre digo que a liberdade é o bem mais precioso que o ser humano almeja. Por isso a humanidade, ao longo dos séculos, tem lutado continuamente no sentido de garantir esse direito a todos. Um marco desses avanços ocorreu com as revoluções americana e francesa, que levantaram a bandeira dos direitos humanos e a autonomia dos três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário. Essa evolução se dá entre avanços e recuos por conta de períodos ditatoriais vivenciados pelas nações. Em nosso país, uma noite de trevas se abateu a partir de 13 de dezembro de 1968, quando, com a edição do Ato Institucional nº 5 (AI-5), todas as garantias do cidadão foram suprimidas. Trinta e cinco anos depois nós precisamos recordar esses acontecimentos para que nunca mais a ditadura prevaleça.

O Brasil passou por dois períodos ditatoriais no século 20: no Estado Novo (1937-1945) e no regime militar (1964-1985). Neste último período alguns fundamentos democráticos foram preservados em seu início e no final. No entanto, entre dezembro de 1968 e dezembro de 1978, época em que vigorou o AI-5, vivemos sob a lei do arbítrio. Coincidentemente, nesses dez anos, foi registrado o maior número de execuções sumárias e de desaparecimentos de políticos em toda a nossa história.

Em 1968, o mundo viveu como nunca uma efervescência política e cultural que abalou as instituições vigentes. No Brasil, isso também se materializou com protestos estudantis, greves operárias, rebeldia parlamentar contra a ditadura e um maior envolvimento da Igreja Católica nas questões sociais. A resposta dos militares foi o recrudescimento da repressão, que culminou na decretação do AI-5 pelo presidente da época, o general Costa e Silva.

Por força desse decreto, foram fechados o Congresso Nacional e as Assembléias Legislativas Estaduais; cassados mandatos de parlamentares; suspensos os direitos políticos de oposicionistas; juízes e funcionários públicos foram demitidos ou aposentados compulsoriamente e suspenso o habeas corpus. Paralelamente, nos porões do regime intensificaram-se a tortura, os assassinatos e outros desmandos. Muitos de nossos maiores pesquisadores e professores universitários tiveram de partir para o exílio. Nossos dois últimos presidentes da República foram vítimas dessas arbitrariedades.

Nesse período, a população não podia votar em presidente, governador, prefeitos das capitais e de cidades consideradas de segurança nacional. A censura à imprensa e aos espetáculos culturais impedia que qualquer fato considerado "indesejável" aos governantes fosse divulgado. Chegou-se ao absurdo de impedir que fosse noticiada a existência de uma epidemia de meningite em São Paulo. Nem mesmo os religiosos foram poupados. Padres e freiras foram presos e torturados. Alguns deles, estrangeiros, acabaram deportados. Estudantes eram expulsos das faculdades sob qualquer acusação.

Até hoje as chagas desse período tenebroso afetam as próprias vítimas ou seus familiares. Felizmente, graças à mobilização popular, principalmente na campanha Diretas Já, a plena democracia voltou a brilhar em nosso país a partir de 1985 e se consolidou em 1988 com a promulgação de uma nova Constituição, que garante em seu artigo 5º "a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade".

Como amigo do Jinkings e militante comunista, luto com milhares democratas constantemente para garantir o respeito às opiniões contrárias e fortalecimento da democracia, o melhor regime entre todos. Que atitudes de prepotência e práticas ditatoriais fiquem apenas nos livros de história e nunca mais se repitam em nossa terra.

E muitas saudades do meu amigo e camarada Jinkings!!!
Aquele abraço,
Lauande.

Blog do Lauande
Perfil do Lauande segundo ele mesmo:
41, casado, sociólogo, professor, comunista, produtor rural e bicolor.
Faleceu em 28 de julho de 2007.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Jinkings por Isa

Raimundo Antônio da Costa Jinkings nasceu, em 05 de setembro de 1927, no que era na época um pequeno povoado, Curumim distrito do município de Santa Helena, banhado pelo rio Turiaçu, no Maranhão. Teve infância pobre, trabalhou desde menino, aprendeu diversos ofícios enquanto aprendia, com o pai, as primeiras letras. Mal entrava na adolescência quando, na sua avidez de saber, em meio aos pertences de seu pai, descobriu e leu o livro do filósofo alemão Schopenhauer, “As dores do mundo”. Estranho e inexplicável: através de que meios teria ido parar Schopenhauer naquele cantinho do mundo?.

Aquela leitura foi o prenúncio de um vida que, toda ela, seria dedicada a lutar exatamente contra as dores do mundo, contra a injustiça, pela liberdade. Sua paixão pela liberdade o conduziu ao Socialismo. E seu coração o prendeu, aos 21 anos, a uma menina de 15, uma linda história de amor que sobreviveu a todos os golpes que a vida lhes desferiu (tantos!) durante 46 anos de absoluta cumplicidade.

Os cinco filhos que esse amor gerou cresceram, felizes, e formaram suas famílias. E a grande família , hoje acrescida de quatorze netos e um bisneto, guarda um troféu que é seu tesouro; a grandeza e a dignidade que herdou com o nome, JINKINGS, sua história, seu exemplo.

Sobrevivendo às prisões e à perseguição sem tréguas, quando lhe tiraram tudo, até os direitos políticos, recomeçou do nada e, com a companheira Isa e os cinco filhinhos Nise, Leila, Toninho, Álvaro e Ivana, em 1965 plantou a primeira semente da Livraria Jinkings, e bem a seu modo continuou semeando a cultura e a esperança, lutando serena e corajosamente contra as dores do mundo... naqueles terríveis momentos, Jinkings e sua mulher também receberam a força da solidariedade, sem fronteiras, de suas duas famílias, de seus amigos, até mesmo dos que se encontravam fisicamente distantes.

Esse bravo, esse extraordinário guerreiro que foi vencendo, uma a uma, tantas batalhas, foi cruelmente abatido pela última delas.

E então, num pedacinho de terra, ele próprio se tornou SEMENTE...


Esse texto foi postado por Isa Jinkings no sítio da Livraria Jinkings.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Depoimento de Odilardo Barbosa

Caríssimos!
Parabenizo-os pela inovação, criatividade, compromisso como o saber/fazer na área fundamental para a expressão da liberdade/dignidade da pessoa humana e seu ambiente: o livro e a manifestação cultural!... Muito belo com o iniciar-se dos pequerruchos! O "velho", permitam-me o tratamento (é solene e deslumbrado) não é lição, mas semente, sim, que ressurge em cada um que, de alguma forma, sente a livraria e faz dela um eterno caminhar, prazeroso e combativo. Sua história representa, sim, "aquele que é indispensável", da cantiga heróica de Brecht. O conheci, altivo, numa das celas contígua na qual eu me encontrava com outros companheiros, principalmente os históricos, do quartel do Batalhão de Selva aqui de Macapá, nos idos negros do Médici. Eu era estudante e me iniciava no radiojornalismo da Diocese, focada na teologia da libertação. Depois conheci a Fortaleza de Macapá e o Forte do Castelo. Ali mesmo, ele transparecia o combatente lúcido e generoso. Fico grato e entusiasmado com a correspondência de vocês, mais uma vez parabéns e aguardo segurar o relacionamento. Breve falarei sobre um projeto biblioteca - BIBLIOL, que estamos montando para socializar o acervo de nossa pequena biblioteca pessoal, a partir de atividades sócio-culturais.
Muito grato.

Odilardo Lima
E-mail recebido em 02/junho/2002.

Depoimento de Ricardo Antunes

Um Nome Para o Viaduto

Concordamos plenamente com o que tem sido veiculado pela imprensa. O nome do Marighella é de repercussão nacional e por isso merecedor de muitas e justas homenagens. Do mesmo modo, é importante que também outros representantes das lutas sociais sejam lembrados pelo exemplo que deram como militantes revolucionários e por isso também merecedores de justas homenagens. Por isso apoiamos o nome de Raimundo Jinkings, que tão bem representa a luta dos revolucionarios do Pará, particularmente por sua trajetória de luta por justiça social, pela cultura do Pará, construindo um pólo de resistência cultural, de esquerda, apesar de toda a perseguição a sua livraria sofreu.

Por isso nos somamos a ideia de homenagear este combativo paraense, que ainda não recebeu o merecido reconhecimento na cidade.


Domingo, 25 de Junho de 2000
Ricardo Antunes

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Luta pela Reforma Agrária









Foto de Isa Jinkings. Junho/87


Nesse dia, um domingo, os deputados federais que faziam parte da subcomissão de Política Agrícola e Agrária da Constituinte iriam fazer uma audiência pública em Paragominas, área de conflito, com os trabalhadores rurais para colher contribuições - e não chegaram lá porque o avião da FAB em que viajavam não conseguiu pousar, por falta de estrutura do aeroporto. As alternativas seriam Imperatriz, no Maranhão, muito longe; ou os campos de pouso dos fazendeiros, mas a audiência era com os trabalhadores. E os deputados desistiriam.

Tinha havido uma enorme mobilização. Paragominas fervilhava de gente. Para lá haviam se deslocado camponeses de varias regiões. Em cima da hora, chegou o telegrama dos deputados. Então, aproveitando a mobilização, se fez um ato público (o da foto) e em seguida uma passeata.
Raimundo Jinkings havia sido convidado, e ele e o deputado João Batista lideraram o evento.


Isa Jinkings

domingo, 19 de agosto de 2007

Edgar Augusto no Entre Letras

Conheci Raimundo Jinkings quando seu PCB já estava legalizado.
Antes, porém, já o sabia um pouco diferente dos outros.
Afinal, ainda criança, e detentor das mais distorcidas informações possíveis, tinha-o como o estranho homem que assumia, condenado pela sociedade burguesa e conservadora, ser comunista.

Olhando suas fotos pelas paredes toda vez que era preso por reuniões clandestinas do Partidão, ficava pensando:

"ele não tem cara de quem come criancinhas".

Um comunista, para mim, há tempos passados, representava tudo aquilo que perturbaria a paz da sociedade, que a viraria de cabeça para baixo, na idéia de repartir todos os bens que cada indivíduo conseguisse para si com trabalho honesto.

Mas Jinkings não tinha um semblante de malvado ...

E era um antigo colega de meu pai no Banco Amazônia. Colega de meu pai não podia representar tanta coisa negativa, pensava.

Mas naquela época, quem comprava livros com ele poderia se comprometer. Estaria sob suspeita de adesão à sua ideologia.

Uma coisa realmente complicada ..

O tempo, contudo, desfez minhas impressões. Cresci, cultivei boas amizades e, pouco, principalmente pelos idos de 69 e 70. já lia sobre o Marxismo.

A fantasia do homem estranho, diferente dos outros, acabou se rasgando com pano velho.

Afinal, o Jinkings pensava há muitos e muitos anos exatamente como eu passaria a pensar daquela época para frente.

O Rui Barata ajudou prá burro nisso. Vesti a camisa do Partidão, gravei seu primeiro programa de TV, depois da legalização. E votei no Roberto Freire para presidente.

Nas reuniões que tínhamos, lá estava ele, ex-estranho homem, já de cabeça branca, sério, sisudo, de poucas palavras, mas de cumprimentos carinhosos. Nunca nos sentamos juntos para prosear.

Não precisava acontecer isto para manter minha admiração por ele.
O Jinkings, para mim, é uma figura importante, pela firmeza, pela verdade, pela coerência. E, sobretudo, pela coragem que mostrou nos momentos mais difíceis pelos quais sua crença passou.

Uma crença que no Pará manteve o PC vivo, a despeito das duvidosas propostas de modernidade política do PPS (um filho indesejado) e que o conduziram a uma espécie de verdadeiro guardião dos verdadeiros alicerces da doutrina socialista.

Hoje, repetindo a história, ele deve ter voltado a ser, para muita gente,
aquele homem estranho ­aquele que está na contramão dos acontecimentos.

Mas isso é típico de quem nasceu para ser, o tempo todo, questionado.
E Jinkings acaba se misturando com a história política do Pará.


Edgar Augusto Proença

Belém, 1994
Prefácio do Livro
Entre Letras e Baionetas – A trajetória de Raimundo Jinkings,
de Jocelyn Brasil

Os mitológicos Jinkings

O negócio é o seguinte: a primeira vez que ouvi falar da saga dos Jinkings durante a Ditadura foi em 66 ou 67, entre sete e oito anos. Soube entreouvindo involuntariamente as conversas dos mais velhos, na sala de casa, na Alcindo Cacela. Sempre falavam dos militantes comunistas e sindicais, especialmente de pessoas como Jinkings, Pereira, Barata, Alfredo Oliveira etc. que de vez em quando estavam presos. Rotina daqueles tempos. Foi a primeira vez que escutei a palavra "greve" e logo associada a "Jinkings". Junto com "bancários" e os anos de 1961/62/63. Soube naquele instante que os Jinkings, para sobreviver, estavam vendendo livros e iguarias. Como mais tarde Rolland Barthes frisou, saber e sabor vêm da mesma acepção de apreciar. Por isso, intuitivamente para um menino daquela idade, a junção de livros e iguarias parecia coerente. Estou falando que sempre vi coerência nas atitudes do Velho Jinkings.

Mais tarde, meu pai falava que era melhor comprar livros com ele por várias razões: ele conhecia sempre o livro que a gente queria ou precisava. Depois, era um camarada e esse tipo de solidariedade entre irmãos de idéias, ideologia ou fé sempre é mais forte e mais sólido do que os laços familiares. Meu pai era um homem internacionalista, mas depois falo dele. Com pouca idade, eu ia da Alcindo Cacela até a pequena livraria, apertadinha e sempre abarrotada de livros. Comprei com ele livros que me abriam a cabeça. Comprei por exemplo os livros clandestinos/proibidos de Marx, Engels, da MIR, da Progresso e os que sobraram da Brasiliense sobre Marxismo. Comprei por exemplo, um da Codecri (do Pasquim), Poemas de Angola, de Agostinho Neto. Mas aí, meninas, eu já era taludinho. Eu estava militando, escondido de minha mãe, que era frouxa nessas questões de ativismo.

De vez em quando eu conseguia um tempo para conversar com R. A. Jinkings sobre política, economia, história. Com o mesmo fascínio com que eu escutava um sapateiro perto de casa falar sobre imperialismo, história antiga e moderna, filosofia e sociologia. Juro pras irmãs: aprendi com um bancário-jornalista (Jinkings) e um sapateiro a ver a história da humanidade com a visão diferente daquela que a ditadura pasteurizava nas escolas. Sempre eu vi nele, Jinkings, uma certa aura de heroísmo, de mito, de coragem. A admiração do menino de então só cresceu. Mesmo após quase oito anos do passamento dele, tenho isso como lição. Eu vi Jinkings trabalhar pelo partido, pelas mudanças, pela redemocratização, pela cultura, pela igualdade, pelo socialismo. Vi praticamente toda a Esquerda paraense - em todas as suas vertentes, acertadas ou distorcidas – dever uma certa formação e informação ou trabalho, ou abertura de idéias ou participação e ação a R.A. Jinkings. Eu o vi se decepcionar com os que buscaram outros caminhos. Eu o vi ser traído. Eu o vi ser acusado de coisas estúpidas como a de ser o dono do PCB no Pará. Logo ele... Logo ele que, se algum mal fez, foi contra ele mesmo, auto-sacrificando-se por um sonho. Vi pessoas com ressentimento e inveja referirem-se a ele com o objetivo de detratá-lo. A péssima inveja. Mas também vi muitas pessoas se referirem a ele com respeito e justiça. Creiam, e podem contar isso a seus filhos, sobrinhos e netos, ele honrou seu tempo. Fez a história e dela participou. E impossível falar sobre esquerda e cultura, sindicalismo e socialismo no Pará sem que se mencione o nome Jinkings.

Tenho quase 44 anos. Há dez estou fora do Pará. Não faço culto à personalidade e às vezes sacaneio com meus mitos, como faço piadas sobre Che Guevara. Não me considero com débito à família Jinkings a não ser o saciamento de meu gosto por leitura e a alimentação de minha curiosidade intelectual. Neste aspecto eu lhes devo algo. Mas posso dizer com isenção que toda impressão sobre R.A. Jinkings é verdadeira, justa e salutar. Obrigado por me lerem.

Luiz Carlos Taveira (Luca)
E-mail de 29/abril/2003

RAIMUNDO LIVREIRO


RAIMUNDO LIVREIRO

Era seu nome: Raimundo.
Seu Partido, sua vida.
Sua coragem aguerrida
Marcou seu rumo no mundo.
Em seus passos na cidade,
Rubro, o suor ensinado,
Coerência e humanidade
Foice e martelo empunhados
Partilhando a liberdade.
Belém do Pará, saudosa,
Trouxe à tua casa, a Poesia
Revestindo a livraria
Com uma luz preciosa
Que tua alma talentosa
Com clareza, construiu.
Teus cabelos prateados,
glorioso camarada
Ornam a foto emoldurada
Lembrando os sons soletrados
Do coração com teu povo,
Com tuas gentes, Raimundo.
Não trago nada de novo:
Velho carinho bem fundo
E um punhado de sins
No poema sem festins.

Jinkings, Raimundo, livreiro,
Acendi o candeeiro
A teu nome, companheiro
E assino a data: janeiro
Início de calendário,
Véspera de aniversário
De Belém, como convém.
Muitos devem muito a ti
À tua luta madura
À derradeira ternura
Forjando da noite escura
A certeza que se aclara
E que o verbo escancara.

Vivos, erguemos a voz
Trazendo a garganta aberta
E a memória bem desperta
Nesta ciranda veloz
Nesta ciranda de paz
Nesta ciranda que faz
Nesta ciranda que traz
A liberdade até nós.


Aline de Mello Brandão
( Belém do Grão Pará, onze de janeiro do ano dois mil e sete, dezoito horas. Crepúsculo)

sábado, 18 de agosto de 2007

Ziraldo conta episódio

Cartunista perdido entre comunistas em Belém

Ziraldo lança seu novo trabalho na Bienal e lembra de antiga viagem à cidade das mangueiras


DC - Que lembranças você tem de Belém?


Ziraldo - Um dia eu estava jantando em Belém. E chegou o Jinkings, dono de uma livraria e ferrenho comunista: - Ziraldo o pessoal está te esperando. E eu: — Opa! Que pessoal? — Achei que era para ir para uma boate, dançar, tomar umas, essas coisas. Que nada! Era para ir para um jantar, onde só tinha comunista. Acho que a célula do partido comunista de Belém inteirinha estava presente. Uma gente maravilhosa, mas todo mundo pensava que eu era comunista. E um deles se levantou solene e disse: — Companheiro... — e eu: — Pera aí, gente! Sou só massa de manobra. [risos]. Adoro Belém.



O Liberal, 13 de maio de 2002, Caderno Cartaz
Denis Cavalcante - Especial para o Cartaz

Arrojo e Ideologia

Raimundo Jinkings: arrojo e ideologiaPor Cláudio de La Roque Leal em O Liberal de 02 de março de 1994

Com mais de 25 anos na pro­fissão de livreiro, Raimundo Jin­kings não chegou a ser surpreen­dido quando lhe foi outorgado, e é fato inédito um livreiro do Nor­te receber, o prêmio "O Livreiro Nacional do Ano", em dezembro passado. Na realidade, a livraria Jinkings é símbolo de resistência. Primeiro, porque em um país on­de os estabelecimentos comerciais não são estáveis, manter uma li­vraria é tarefa para poucos, ainda mais em se tratando do Brasil, que não tem tradição de leitura. Depois, quando o Brasil atraves­sava o período negro da ditadura militar, Jinkings sobreviveu com a livraria Monteiro Lobato, ven­dendo, inclusive, material que o governo considerava subversivo, o que gerou prisão e depoimentos na Polícia Federal, junto com seu amigo e sócio, Sandoval Barbosa.
A têmpera de Jinkings é a grande merecedora deste prêmio. A livraria começou com um simples cômodo da casa onde mora­vam, após a cassação de Jinkings e a perda do emprego no Banco da Amazônia. Antes da livraria, quando da cassação, a família foi mobilizada e começou a vender doces na feira da Batista Cam­pos. Jinkings jamais desanimou e se hoje a livraria Jinkings é uma das maiores do norte-nordeste brasileiro, é devido a essa tenaci­dade. Esta o levou a ser represen­tante das grandes editoras nacio­nais, bem como a colocar em Be­lém, obras que dificilmente che­gavam. A maioria das livrarias existentes há 20 anos, apostavam nos livros didáticos.
A livraria é reflexo da ideo­logia de vida e trabalho de Jin­kings. Existe para fomentar a venda de livros e transformar uma simples livraria em um mun­do à parte. O tempo encarregou-se de ir adequando a militância política à vida atual. Raimundo Jinkings não abre mão de suas convicções, nascidas, aliás da leitura das obras de Victor Hugo, quando o sentido da revolta foi nascendo. Jinkings acredita em uma reforma diferente, uma re­forma plena e honesta.

"Quando não se investe em livros, a cultura é atingida direta­mente pela crise. Ao contrário do que ocorria anteriormente, as noite de autógrafos são vazias se não bem divulgadas. A mídia não era tão determinante. Todo mundo sabia o que ia ocorrer". Jinkings lembra do período quando os debates realizavam-se com freqüência e as livrarias fica­vam cheias de pessoas nos lança­mentos e as conversas iam ma­drugada inteira com troca de in­formações. Ali reciclava-se as in­formações. As mordaças da dita­dura militar só faziam com que os versos, as palavras ditas em surdina, traduzissem toda a re­pressão de um período negro na história do Brasil. Àquela altura passamos fome, mas tínhamos uma luta maior, um silêncio a ser quebrado. Verdades a serem proferidas.

Hoje, ,essas verdades foram sendo esquecidas através de pac­tos e mais pactos e as opiniões di­vergem em favor de paixões ver­dadeiramente indignas. Por paixões dignas, a Jinkings busca a interiorização. "Assim como trazemos grandes nomes da nossa literatura a Belém, promovendo debate e noite de autógrafos, queremos levar nossos escritores para o interior do Estado, fomen­tando o gosto pela leitura, dando condições a pessoas que têm pou­ca oportunidade de vivenciar essa mágica fantástica que é ler e des­cobrir o mundo através da leitura"

Jinkings quer que 94 seja o ano da leitura e só vê uma saída para isso, 'fomentar e aquecer a economia brasileira, dando con­dições dos livros chegarem às prateleiras, muito mais baratos do que vêm chegando. "Precisamos de novos empregos, maior poder aquisitivo, e nova política cultural. Para melhorar o mercado do livro, para dar condições de mais leitores, precisamos me­lhorar o nível de vida do brasilei­ro". Uma novela atualmente, mostra uma personagem que bus­ca crescer através do conhecimen­to, através da leitura. Esse com­portamento, esse valor, anda meio esquecido.

Com o prêmio que lhe foi outorgado pela Associação Nacional do Livro, Raimundo Jinkings crê que o reconhecimento faz alguma diferença. Simples, não acredita em grandes mudan­ças, mas crê que isso lhe dá con­dições de vivenciar melhor essas experiências fantásticas. Uma das quais, talvez a melhor, é, ao fim de um dia de trabalho, andar na livraria, ver as pessoas compran­do e ir conversando com um, com outro, discutindo os problemas nacionais, analisando soluções, rindo de piadas. E fica a persis­tência que enfrentou a ditadura, as crises com coragem e muita força de vontade. Persistência digna de um poema de Brecht. Aquele que fala dos imprescindí­veis.