MISÉRIA HUMANA
Por Raimundo Jinkings
Quando passamos pelas ruas de Belém, principalmente a João Alfredo, deparamos com um grande número de seres humanos que, certamente, já tiveram lar, já trabalharam, já produziram e já contribuíram com a parcela de seus esforços para o progresso de nossa Pátria, do nosso Estado, e para o enriquecimento de alguns privilegiados da sorte e do regime, mas que hoje estão transformados em verdadeiros farrapos humanos, jogados nas calçadas, submetidos ao sol e à chuva, sujeitos a toda sorte de misérias, comendo aquilo que o diabo enjeita, desprezados por tudo e por todos, humilhados pela própria sociedade. Esses mesmos homens que, sem dúvida, sonharam ter na velhice uma vida tranqüila, sem privações, digna dos que trabalham e que produzem, viram seus esforços e seus ideais vencidos pela ambição insaciável dos ricos e pelo descanso dos governos. Triste realidade!
Quanto é triste e doloroso saber que dentre esses mendigos, que estão jogados ao léu, ostentando suas chagas físicas ao lado das rebrilhantes exposições de jóias, há um jovem que esteve na última guerra, lutou e sacrificou-se pela prometida liberdade e fraternidade dos povos. Esse infeliz idealista voltou da guerra, doente, inutilizado para o resto da vida, mas cheio de esperanças, na certeza de que havia contribuído para a conquista do mundo com que sonhara. Ao regressar, não desejava mais do que a Paz para o mundo e o necessário para sua subsistência. Entretanto tudo lhe foi negado. Os homens, que lhe prometeram vida melhor, esqueceram-se do compromisso, e estão agora gozando as delícias das fortunas conseguidas à custa da miséria do Povo durante a guerra, desse mesmo Povo de quem foram exigidos o sangue, o trabalho e o sacrifício, para defesa da Paz e da Democracia, dessa Paz e dessa Democracia que ainda não conhecemos.
Não poderá haver Democracia e nem poderá haver Paz enquanto assistirmos a cenas dolorosas como essas, e enquanto não acabarmos com os privilégios vergonhosos dessa estranha fauna dos capitalistas. O que precisamos é de justiça, mas a justiça só é perfeita, só é justiça de verdade quando é feita igualmente para todos, sem distinção condições sociais, de raças ou de cor. São do grande Simon Bolívar estas significativas palavras: "Conservai intacta a lei das leis: a igualdade. Sem ela perecem todas as liberdades, todos os direitos". Quão verdadeiras são essas palavras que, lendo-as, acreditamos com toda a sinceridade que um dia haveremos de dar ao nosso Povo aquilo que não nos é possível dar-lhe no regime capitalista: a igualdade econômica e social. No próprio Estados Unidos, o país capitalista mais rico do mundo, existe a fome e a miséria, consoante apuração feita em 1939, dos 30 milhões de famílias norte-americanas 8 milhões morreriam de fome se o governo não as socorresse, e 11 milhões lutariam contra a miséria. Referindo-se a essa estatística, o líder nacional do Partido Socialista, o eminente Dr. João Mangabeira, com precisão: “Tudo isso demonstra que ainda no país mais rico do mundo, o regime capitalista não pode resolver o problema da fome e da miséria".
O problema da pauperização em nosso Estado do governo imediatas providências medidas concretas benefício do Povo, com o objetivo de acabar com essa situação difícil e desmoralizante.
Nem a mais santa das intenções resolve em contrário.
Lembrem-se de Fauchet na convenção da grande Revolução Francesa:
"Considerando que a igualdade não deve ser uma miragem enganadora que todos os cidadãos inferiores, velhos órfãos indigentes, sejam albergados, vestidos e alimentados à custa dos ricos; os sinais da miséria sejam destruídos, a mendicidade e a ociosidade sejam proscritas; que se dê trabalho a todos os cidadãos válidos".
Que adiantou? Nada. A questão, evidentemente, não é de sonhar. Ou o governo se mexe, ou o Povo virá a fazê-lo por suas próprias mãos inevitavelmente, de modo violento.
Há o caminho da construção socialista, pacífica, e há o caminho que garante sucessos, como os acontecimentos do Rio Grande do Sul estão a indicar. Escolha o governo a solução enquanto ainda lhe resta um pouquinho de tempo.
Folha, 10/08/1952
(Reproduzido no livro Entre as Letras e as Baionetas, de Jocelyn Brasil, pp. 179 a 181).
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terça-feira, 13 de novembro de 2007
sexta-feira, 21 de setembro de 2007
PROFISSÃO DE FÉ
"Temos direito a uma vida decente e
próspera, porque trabalhamos e produzimos.
E, por esse direito, devemos lutar a vida inteira,
hoje como ontem, amanhã e depois.
Esse dia virá, temos certeza. Tudo dependerá
de nós, de nossa persistência, de nosso idealismo e,
sobretudo, de nossa união".
R. A. Jinkings
O Flash - 10/08/53
próspera, porque trabalhamos e produzimos.
E, por esse direito, devemos lutar a vida inteira,
hoje como ontem, amanhã e depois.
Esse dia virá, temos certeza. Tudo dependerá
de nós, de nossa persistência, de nosso idealismo e,
sobretudo, de nossa união".
R. A. Jinkings
O Flash - 10/08/53
quarta-feira, 5 de setembro de 2007
Feliz Aniversário, Jinkings!
Neste cinco de setembro revolvo alguns documentos de Raimundo Jinkings com a intenção de comemorar seu aniversário de nascimento posto que mais de uma década de sua partida não apagaram as marcas de sua existência entre nós em face de sua exemplar figura de líder coerente e equilibrado diante de destacados episódios da política nacional e paraense como ente de relevo no protagonismo do movimento político de esquerda que abraçou e que lhe credenciou como pródigo pregoeiro no caminho de uma sociedade de Justiça Social e Fraternidade de cujas lutas que foram ainda mais realçadas nos anos de chumbo tanto por seus atos de firmeza e de coragem como pelas palavras que espalhava aos quatro cantos do seu amplo universo militante seja pelos livros que distribuía com preciosos saberes a instrumentar os companheiros de luta seja pelas colunas publicadas na mídia paraense em que falava com segurança e propriedade de opinião aos leitores muitas vezes tolhidos em seus direitos em face da ação do obscurantismo e ávidos de informações e orientação segura como aquelas de inspirado artigo que escrevera em 15 de março de 1985 para O Liberal comemorando o início da Nova República pelo que ela representava de avanço na inauguração de um novo patamar construído através de um pacto social que no seu dizer “se originou do maior movimento de massas de todos os tempos com o povo nas ruas exigindo mudanças e repudiando definitivamente qualquer tentativa de dar continuidade ao mais longo e brutal obscurantista período de nossa história” e que se tornou vitorioso pela luta de mais de 20 anos contra a tirania a despeito dos setores sectários da esquerda que se negavam a somar esforços na condução e construção do novo tempo a empunhar “a equivocada teoria do ‘tudo ou nada’ do nem Maluf nem Tancredo apostando no impasse” e reforçando os objetivos espúrios daqueles que tramavam criar um “clima propício para mais um golpe militar reacionário violento” que ele já antevia ser novamente articulado com a “política de dominação do imperialismo americano” para viabilizar o retorno ao obscurantismo que tantas vidas patrióticas ceifou e que poderia ganhar força como resultado daquilo que Jinkings costumava atribuir à “doença infantil do esquerdismo” de suas leituras leninistas sobre as eras revolucionárias e que ainda hoje faz parte do nosso cotidiano político em que “revolucionários” lulofóbicos reforçam posições dos eternos oposicionistas golpistas e do projeto midiático de poder numa enorme incompreensão do processo de avanço para um novo patamar político com a eleição e reeleição de Lula que guarda coincidente semelhança com a infantil resistência e com as preocupações do camarada Jinkings naquele já longínquo e tancredista ido de 1985 e em outras datas e outras letras em que sua visão e equilíbrio políticos e seu grande amor à causa do Socialismo lhe fizeram sábio e merecedor da nossa admiração e de nossa vontade de sempre lhe homenagear como lhe estamos mais que justamente homenageando neste cinco de setembro. (Sidnei Pires)
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