domingo, 19 de agosto de 2007

Os mitológicos Jinkings

O negócio é o seguinte: a primeira vez que ouvi falar da saga dos Jinkings durante a Ditadura foi em 66 ou 67, entre sete e oito anos. Soube entreouvindo involuntariamente as conversas dos mais velhos, na sala de casa, na Alcindo Cacela. Sempre falavam dos militantes comunistas e sindicais, especialmente de pessoas como Jinkings, Pereira, Barata, Alfredo Oliveira etc. que de vez em quando estavam presos. Rotina daqueles tempos. Foi a primeira vez que escutei a palavra "greve" e logo associada a "Jinkings". Junto com "bancários" e os anos de 1961/62/63. Soube naquele instante que os Jinkings, para sobreviver, estavam vendendo livros e iguarias. Como mais tarde Rolland Barthes frisou, saber e sabor vêm da mesma acepção de apreciar. Por isso, intuitivamente para um menino daquela idade, a junção de livros e iguarias parecia coerente. Estou falando que sempre vi coerência nas atitudes do Velho Jinkings.

Mais tarde, meu pai falava que era melhor comprar livros com ele por várias razões: ele conhecia sempre o livro que a gente queria ou precisava. Depois, era um camarada e esse tipo de solidariedade entre irmãos de idéias, ideologia ou fé sempre é mais forte e mais sólido do que os laços familiares. Meu pai era um homem internacionalista, mas depois falo dele. Com pouca idade, eu ia da Alcindo Cacela até a pequena livraria, apertadinha e sempre abarrotada de livros. Comprei com ele livros que me abriam a cabeça. Comprei por exemplo os livros clandestinos/proibidos de Marx, Engels, da MIR, da Progresso e os que sobraram da Brasiliense sobre Marxismo. Comprei por exemplo, um da Codecri (do Pasquim), Poemas de Angola, de Agostinho Neto. Mas aí, meninas, eu já era taludinho. Eu estava militando, escondido de minha mãe, que era frouxa nessas questões de ativismo.

De vez em quando eu conseguia um tempo para conversar com R. A. Jinkings sobre política, economia, história. Com o mesmo fascínio com que eu escutava um sapateiro perto de casa falar sobre imperialismo, história antiga e moderna, filosofia e sociologia. Juro pras irmãs: aprendi com um bancário-jornalista (Jinkings) e um sapateiro a ver a história da humanidade com a visão diferente daquela que a ditadura pasteurizava nas escolas. Sempre eu vi nele, Jinkings, uma certa aura de heroísmo, de mito, de coragem. A admiração do menino de então só cresceu. Mesmo após quase oito anos do passamento dele, tenho isso como lição. Eu vi Jinkings trabalhar pelo partido, pelas mudanças, pela redemocratização, pela cultura, pela igualdade, pelo socialismo. Vi praticamente toda a Esquerda paraense - em todas as suas vertentes, acertadas ou distorcidas – dever uma certa formação e informação ou trabalho, ou abertura de idéias ou participação e ação a R.A. Jinkings. Eu o vi se decepcionar com os que buscaram outros caminhos. Eu o vi ser traído. Eu o vi ser acusado de coisas estúpidas como a de ser o dono do PCB no Pará. Logo ele... Logo ele que, se algum mal fez, foi contra ele mesmo, auto-sacrificando-se por um sonho. Vi pessoas com ressentimento e inveja referirem-se a ele com o objetivo de detratá-lo. A péssima inveja. Mas também vi muitas pessoas se referirem a ele com respeito e justiça. Creiam, e podem contar isso a seus filhos, sobrinhos e netos, ele honrou seu tempo. Fez a história e dela participou. E impossível falar sobre esquerda e cultura, sindicalismo e socialismo no Pará sem que se mencione o nome Jinkings.

Tenho quase 44 anos. Há dez estou fora do Pará. Não faço culto à personalidade e às vezes sacaneio com meus mitos, como faço piadas sobre Che Guevara. Não me considero com débito à família Jinkings a não ser o saciamento de meu gosto por leitura e a alimentação de minha curiosidade intelectual. Neste aspecto eu lhes devo algo. Mas posso dizer com isenção que toda impressão sobre R.A. Jinkings é verdadeira, justa e salutar. Obrigado por me lerem.

Luiz Carlos Taveira (Luca)
E-mail de 29/abril/2003

2 comentários:

Luiz Taveira disse...

Mesmo passados 12 anos após escrever este depoimento, eu o considero atual. Minha intenção era a de escrever sobre todos os Jinkings militantes. Até hoje a família milita de alguma forma. Ainda havia a ressaltar o caráter democrático de R. A. Jinkings, como o fato de ele ter tido algumas filhas trotskistas.

Hoje, 5 de setembro de 2015, é o aniversário de nascimento do Camarada Jinkings. Ele completaria 88 anos.

Leila Jinkings disse...

Obrigada, querido.

Acho que troska foi só eu mesma :-) Fui da Convergência Socialista, participei da fundação. Saí dela para o PCB na luta sindical, ao lado de meu pai, no Sindicato de Jornalistas.
abração